2.8.08

A palavra do dia: português

Antes de eu vir para cá, perdi a conta de quantas vezes alguém fez a velha brincadeira "ah, mas vai ser difícil porque você não domina a língua". E eu dava risada, porque, afinal, não estava indo pro Japão ou algo assim (tenho uma amiga que mora no Japão há 1 ano e não fala japonês, isso sim)



Mas a verdade é que, não, eu não domino a lingua portuguesa. Pelo menos não o português daqui. E acredite, as diferenças são muitas. O suficiente para tudo o que eu escrevo ter que passar por revisão. Fora o desdém pelo português do Brasil: aqui é chamado de "brasileiro", como se fosse uma língua à parte e já tive que ouvir que é um "dialeto". Engraçado, não é. um dialeto ser falado por mais gente que a língua original? Pois é.

Então vivo uma relação de amor e ódio. A língua que sempre foi tão minha, agora não me pertence mais. E ter um português impecável sempre foi uma das coisas que eu sabia sobre mim (ter sido revisora é um orgulho, sim). E agora nem sempre acerto, não posso mais confiar no que sei. Começo a ado(p)tar as letras extra e os acentos ausentes do português daqui, os ora pois, os ó pá, os "a fazer, a enviar", o se faz favor. Já pergunto pela casa de banho sem nem pensar duas vezes. Parece coisa pequena, mas é suficiente pra eu escrever menos no blog, por exemplo.

Porque agora o que eu escrevo aqui não está certo pra quem me lê do Brasil e de repente se depara com um "c" ou um "p" no lugar errado e também não soa bem pra quem me lê daqui, com todos os brasileirismos. Um nó na minha cabeça, sabe?

Às vezes dá vontade de começar o blog tudo de novo, porque me parece que ele já não me reflete muito bem. Não tem os contos que eu gostaria de escrever. Não tem todas as novidades sobre publicidade/guerrilha/design que eu queria compartilhar com quem se interessa por isso (mas que eu organizo no meu Google Reader, na barrinha de links aí do lado, em "peixinhos dourados"), não é nem mesmo um diário decente. Mas não vou parar não. É vício. Uma hora ele toma a forma que tiver que ter, na língua que tiver que ser. :D

8 comentários:

Menina Dedê disse...

Eu acho que o português do Brasil ser chamado de brasileiro não deveria ser visto como desdém. É, mesmo, bem diferente. Daí eu ser contra o acordo ortográfico. Acho uma bobagem. O inglês americano não é igual ao britânico e ninguém fica com firulinha.

Thata disse...

ione, já não concordo. Inglês britânico e inglês americano são diferentes, mas ambos são chamados de inglês, não é mesmo? é só uma questão de sotaque, sabe. e sou a favor da unificação, porque torna a lingua mais prática, principalmente aqui que tem uns resquícios arcaicos. (vish, podia ficar hoooras falando disso ahauhauh)
beijocas

Anônimo disse...

Olá menina. Sinto-me tal e qual! Estou em Lisboa há 1 ano...e me dá um ataque de nervos ouvir, ah...você fala brasileiro. RRR! Nice blog. Bjs!

www.pasteldevento.blog.com

Anônimo disse...

By the way...é publicitária! Nice, nice portfolio :)

Menina Dedê disse...

Ué, Thata. Português é chamado de português. Não importa se aqui ou lá. É, sim, diferente e há distinções. Apesar de serem a mesma coisa. Um é português brasileiro. Outros são de onde forem. Angola, Moçambique, Guiné. Como também é com o inglês. Britânico, americano, australiano, etc. Mesma língua, com particularidades. Mas não precisa unificar porque todo mundo se entende.

Não acho que as pequenas diferenças em quaisquer das versões devam ser apagadas. Faz parte de como as línguas continuam mudando -- em cada lugar, de um jeito diferente. Se em Portugal há resquícios arcaicos e no Brasil não, acho lindo. No Brasil há outras coisas, outras particularidades. Porque é assim mesmo. Cada povo com a sua cultura, com seu jeito de "evoluir" a língua.

As mudanças em qualquer língua vão acontecendo, diferentes em cada lugar, porque se baseiam em uso. Se estamos em continentes diferentes e pensamos diferentinho e temos outra cultura, por que fazer da língua que falamos a mesma coisa? Fosse assim, levada à última conseqüência (olha aí: trema que vai cair -- e pra quê? não dá pra entender?), todo mundo, em todos os países, o mundo todo deveria falar exatamente a mesma língua, que deveria ficar engessada por regras pra que não mudasse nunca (o que é impossível, porque não dá pra controlar uso de língua: ia ter que ter polícia da língua e todo mundo ia acabar sendo preso).

Olha, aqui, hispânicos e latino-americanos são chamados erroneamente de espanhóis. Se você fala espanhol, o povo chama de espanhol (rola essa confusão). Quando eu digo que no Brasil se fala português, já acham que eu sou portuguesa. Eu não sou, obrigada. Eu falo português, o que se fala no Brasil, e sou brasileira.

Ai, que comprido. E nem sei se eu estou esclarecendo o que eu queria dizer.

Anônimo disse...

Normal esta confusão toda. Mas acostuma-se, garanto-te!
Gosto de ler o blogue porque já passei por tudo o que estás a passar.
Se precisar de revisão posso fazê-la. Mas às vezes ainda me escapam alguns "brasileirismos".
Estou na fase híbrida da língua, nem uma nem outra.
O pior é quando começares a esquecer os termos brasileiros... Aí vai ser mesmo engraçado!

Beijocas

Anônimo disse...

Ah, lembrei-me agora de uma coisa que me disseram logo que cá cheguei.
O português brasileiro é muito mais quinhentista que o português de Portugal. Isso porque na época que o Francês e a França eram a moda a ser seguida, eles afrancesaram o português deles e nós lá do outro lado do Atlântico mantivemos as origens mais "intocadas" a não ser pelos termos indígenas e africanos que incorporamos à língua.
Se eles pegarem um Camões no original têm mesmo muita dificuldade em entender, enquanto nós levamos na boa.
Os gerundios são muito mais originais da língua tanto que o "alentajano" (dialeto do alentejo) utiliza-o até hoje.

Só para compartilhar a informação que me foi dada quando comecei a questionar a mesma coisa.

Tati. disse...

Também morei um tempo em Lisboa e tive problemas com o idioma... Foi frustrante, sou jornalista e amo português! E quer saber, acho muito feio o jeito que eles falam e escrevem aí, não fiz questão nenhuma de mudar o meu brasileirismo, apesar de sentir todo o preconceito que tu deves saber bem como é.
O preconceito, penso eu, existe mais pelo falo de termos muitos conterrâneos queimando nosso filme a torto e a direito aí e pelo sotaque somos identificados. Como muitos dos queridos 'tugas' não tem a capacidade de discernimento entre puta e estudante, ladrão e trabalhador, nós, brasileiros decentes, pagamos o parto.
Quanto aos 'P's e 'C's perdidos no meio das palavras, nem perca seu tempo, pois vão cair. Aliás muito mais coisas vão mudar no 'português' do que no 'brasileiro'. ;)
Beijinhos e boa sorte no lusomundo!