16.9.07

El Perro

- ¿Entonces usted és el perro?

Tinha ouvido falar dele o dia todo. El perro e suas aventuras, el perrito e suas mujeres. O que ainda nao havia visto Buenos Aires durante o dia. O que, louco, mijou em frente a uma delegacia. El famoso perrón.

- Claro que és el perro - disse Miquel, rindo - miralo, ¡está nítido!

Sim, estava nítido na barba por fazer, no cabelo desalinhado, nas roupas mal ajambradas. E estava mais nítido ainda nos olhos, aqueles olhos azuis que quando me miravam faziam o estômago revirar.

- ¡Porsupuesto!, já lo havia notado pero no quis dicerlo - e sorri para ele enquanto todos riam muito em meio à fumaça.- ¿Por que te llaman asi?

Mentiu qualquer coisa com sotaque francês.

Mais tarde repeti a pergunta e me respondeu com uma forte mordida na nuca.

No dia seguinte, notei que me seguia por la calle. Levei para casa, dei banho, tirei as pulgas, tratei das feridas.

Nas noites de lua cheia, os vizinhos jogavam baldes de água fria pela janela enqanto ele me comia por trás e me lambia com gosto. Uma vez me fez gozar só deslizando a língua pela palma da minha mão direita.

Em outras noites, se queria me convencer de algo, cantava baixinho em francês no meu ouvido.

- No gaste su francés conmigo, perrito, no soy como las putas a quién conquistas mostrando su passaporte.

Mas era só charme, porque a essa altura ele já teria me convencido de qualquer coisa só me olhando com aqueles olhos de fome. Quem resiste a um olhar de cão faminto?

Deixava a porta aberta para que pudesse dar seus passeios. Sempre voltava. Às vezes demorava alguns dias, outras vezes vinha machucado por brigas com outros perros, mas voltava sempre.

Quando se foi, até procurei por ele durante um tempo. Ainda me doíam as mordidas no pescoço. Percorri os parques, as praças, os pulgueiros mais sujos da cidade. Nada.

Perros vadios no tienen donas, pensei.

Às vezes ainda acaricio algum cachorro de rua - você sabe quantos cães abandonados existem em Buenos Aires? - mas, mesmo que me sigam (e sempre seguem), não os deixo mais entrar em casa. E, por via das dúvidas, nunca mais deixei que nenhum perro me lambesse as mãos.

(fecha os olhos e clica em "publicar postagem". sem censura.)

13 comentários:

Menina Dedê disse...

Esse perro tomou um navio de volta pra Europa?

Anônimo disse...

eu sempre disse que prefiro os cachorros.
vc que insistia nos gatos.....


hehehehe

Carol Fonseca disse...

Perro são melhores que franceses?!?! rsss
Becitosss

Renata disse...

ameeei, Thais...

(e eu aqui pronta pra descontar toda a energia que vem se acumulando de novo na aula de boxe)

Renata disse...

Uau. Adorei isso!

Helen disse...

Hay perros y perros...

*suspiro*

Andre Viegas disse...

Muito bom. Os cachorros de plantão agradecem, rs.

Mas o q mais gostei foi a última frase, entre (), rs.

Bjs

Anônimo disse...

Amores perros...

Thata disse...

ah, ione, o perro da história sumiu de vez.

Má, ahora me gustan los dos. Especialmente se el perro for também un gato.

Carol, perros franceses.

Eh, Tata, eu desconto a energia no teclado ;) (mas circo e brigadeiro ajudam tb)

Brigada, Rê.

Pois é, Helen, de todas as raças, de variados temperamentos. Hay perros y perros.

WL, aqui, a verdade sempre vem entre parênteses.

E pra quem não sabe, a Kimu elogiou esse texto ontem e eu fiquei me achando moooito! haha

E pessoas, sempre vale lembrar: nem tudo que está em primeira pessoa é real, hein. Mas também não existe ficção pura.

Luma Rosa disse...

Credo! Acho que confundiu Fergie com Feist! Prefiro assim! Beijus

Anônimo disse...

Se a Kimu elogiou, quem sou eu pra discordar... Lindo, Dona Thata!

Thata disse...

Luma, num entendi nada, hein.

Obrigada, Sr. Michel! bj!

Unknown disse...

E eu que achava que você era meio literata; tenho certeza.

Bem que eu desconfiava que uma menina assim de, em geral, tão poucas palavras, tinha de ter um veio de expressão pelas letrinhas; mas, pensando bem, talvez seja só uma primeira impressão (impressões primeiras são, via de regra, fugazes). Enfim, antes que eu ache que este é o meu blog (atenção para a palavra 'fugaz')e não pare mais de escrever - muito bom! :-)

Assim, para que não haja dúvidas quanto à sensura, eu diria que não se pode "ler um texto como um relato da vida de quem escreve". Será?. rs
Os "literatos" estão se contorcendo em seus caixões. rs
Bjs