12.6.03

ESPELHO

“Ela é linda!” “Ela é índia!” “Chegou ontem” “Não sabe nem usar talher, a gente teve que ensinar.” “E hoje não abriu a boca pra falar com ninguém.” “também, vocês assustaram ela fingindo de bicho.” Todos falavam ao mesmo tempo, querendo me contar a novidade, mas o mais espantoso me foi dito por uma das meninas:
-Ela nunca tinha visto um espelho!
A “ela” de quem todos falavam era Patrícia, a índia. Era linda e nem sabia, vestida como boneca pelas meninas do abrigo.
Sentei ao seu lado e aos poucos ela foi me contando a história de como em uma semana fugira de sua tribo na Amazônia e fora parar em um abrigo para crianças no meio de São Paulo. “Fugi com a minha mãe.” –disse ela- “ficou na tribo a minha Omma (a mãe verdadeira) e a minha vó.” Falava com um sotaque diferente e, para diversão das outras crianças, trocava algumas palavras em português por outras de sua tribo.
Saí de lá espantada. Tinha ido dar aulas de inglês, uma língua que não é a minha, para crianças que vivem uma realidade muito diferente da minha por terem crescido na rua e me deparei com uma situação ainda mais inusitada, a de uma menina que 10 dias atras vivia em contato com onças e jacarés.
No meu espanto, porém, havia uma pitada de identificação. Como ela, eu também estava longe de casa. Como ela, também me espantei com a cidade quando aqui cheguei. Como ela, e tantos outros, também sinto falta das coisas que deixei para traz.
Naquele dia não dei aula, mas saí de lá com a sensação de ter aprendido muito. Pude ver com meus olhos o Brasil de variedades e contrastes de que tanto falam os livros. E aprendi também que, mesmo com todas as diferenças, não somos tão diferentes assim. Há algo em nós que nos une. Talvez seja a felicidade brasileira de que falam os livros.
Em tempo, a volta de patrícia para sua tribo já está marcada. Em sua bagagem, com certeza ela vai levar um espelho.

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